terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Este blog mudará de dono

Devido a falta de tempo, decidi passar o comando deste blog para um dos meus amigos, que tem o nome de Cecílio do Valle. Vocês devem ter notado que além de estar sem postagens, este blog tem preferido publicar textos alheios com comentários meus. Por isso, abro mão do comando deste blog, que passará a ser administrado pelo novo dono, que respeitará o estilo e o perfil já consagrados. 

Agradeço o prestigio de vocês e continuem me acompanhando no Rio de Carneiro e no Footilidades, que continuarei administrando. Ter menos blogs para mim é mais conveniente. Conseguirei manter estes dois. Um abraço e continuem prestigiando o blog que continuará ativo com o novo dono.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Como seria o Brasil de Bolsonaro (de acordo com suas próprias palavras)

Cynara Menezes - Blog Socialista Morena

Um exercício futurístico sobre o destino que nos reserva se o candidato de extrema-direita for eleito no próximo domingo.

Com a Câmara Federal presidida por um dos filhos do presidente da República e o Senado pelo outro filho, o Brasil virou uma dinastia militar-civil-teocrática desde que Jair Bolsonaro chegou ao poder. A expressão “estado policial” é a exata tradução do que vivemos: violência, repressão e banhos de sangue se tornaram parte do cotidiano do brasileiro.

Depois que o presidente Jair liberou as armas de fogo para toda a população, os atentados a bala, antes raros no país, tornaram-se frequentes. A exemplo do que acontecia nos Estados Unidos de Donald Trump, que não foi reeleito, pelo menos um massacre por mês é perpetrado. O número de pessoas, muitas delas crianças, atingidas por tiros acidentais dentro de casa se multiplicou em 3000%.

A lista de animais em extinção já tem mais de 100 espécies desde que o ex-militar ocupou o poder e extinguiu o ministério do Meio Ambiente. Com a caça “esportiva” liberada em todo o território nacional, animais da fauna brasileira estão desaparecendo com uma rapidez nunca vista desde a colonização do país pelos portugueses. Os órgãos de meio ambiente nada fazem, até porque uma das primeiras ações de governo de Bolsonaro foi transformá-los em órgãos sem nenhum poder de fiscalização e punição.

A polícia e as Forças Armadas têm mantido os moradores das comunidades carentes acuados, com medo de sair de casa. O toque de recolher foi instituído em todas as regiões pobres das grandes cidades. De acordo com pesquisas clandestinas, já que o governo controla os dados oficiais, o número de jovens negros inocentes mortos em “autos de resistência” subiu 500% desde que Bolsonaro concedeu excludente de ilicitude para os policiais, uma espécie de salvo-conduto para matar. Parte da população, porém, não parece se solidarizar com as mães de família pobres que perderam seus filhos. “Se morreu é porque alguma coisa fez”, defendem os bolsonaristas.

O número de jovens negros inocentes mortos em “autos de resistência” subiu 500% desde que Bolsonaro concedeu excludente de ilicitude para os policiais, uma espécie de salvo-conduto para matar.

Mesmo com os cidadãos armados e a polícia matando “suspeitos”, todos eles negros, a rodo, os índices de criminalidade não param de subir, impulsionados pelo aumento da desigualdade social e da miséria. Expulsos de suas terras, índios e quilombolas engrossam a multidão de brasileiros desabrigados e sem casa para morar, vivendo em barracos na periferia das grandes cidades. Tampouco há quem os defenda, já que os líderes dos sem-terra e dos sem-teto estão presos acusados de “terrorismo” e as ONGs foram proibidas de atuar em território nacional.

Até mesmo as lideranças do agronegócio, velhos aliados de Bolsonaro, têm mostrado insatisfação com os rumos do governo, já que o país perdeu vários mercados após o ex-deputado assumir a presidência. Ao tirar o Brasil do acordo de Paris, Bolsonaro viu as portas da União Europeia se fecharem para nossos produtos. E graças à atitude do presidente de apoiar Israel irrestritamente, os pecuaristas perderam também as exportações para os países islâmicos, principais importadores da carne e do frango brasileiros. A China também reduziu o comércio conosco devido às críticas de Bolsonaro às empresas chinesas.

Ao tirar o Brasil do acordo de Paris, Bolsonaro viu as portas da União Europeia se fecharem para os produtos brasileiros. E graças à atitude do presidente de apoiar Israel irrestritamente, os pecuaristas perderam as exportações para os países islâmicos.

Mas as entidades ruralistas não podem reclamar, porque apoiaram a iniciativa do PSL, partido do presidente, de enfraquecer os sindicatos, acabando com a unicidade sindical. As empregadas domésticas voltaram a ser trabalhadoras de segunda classe, porque Bolsonaro revogou a lei que as igualava aos demais trabalhadores, com direito a carteira assinada, férias remuneradas e 13º salário. Aliás, nenhum trabalhador tem férias e 13º, e tampouco conta com os sindicatos para pressionar o governo: a lei de greve também foi revogada e os protestos nas ruas só podem ocorrer com autorização da polícia. Com o fim do 13º salário, o comércio natalino foi destruído e muitas lojas que apostavam no movimento da época fecharam, aumentando o número de desempregados.

Nas escolas, policiais militares chegam a algemar crianças pequenas que “se comportam mal” como forma de castigo, parte da “repressão democrática” imaginada pelos assessores educacionais do presidente. Nos livros escolares, a ditadura é chamada de “movimento” e aspectos positivos da prática da tortura em seres humanos são apresentados aos alunos. À frente do Ministério da Educação, um general concretiza o que a direita acusava o PT de fazer: doutrina criancinhas.

Professores que não aceitam os novos parâmetros curriculares são perseguidos e demitidos, como aconteceu nos EUA na época do macarthismo, graças à obrigatoriedade da aplicação do “Escola Sem Partido” em toda a educação pública. Estudantes são estimulados a gravar e denunciar docentes que fogem da cartilha. Os alunos também são obrigados a orar antes das aulas, de acordo com a Bíblia protestante. Outras religiões não são aceitas. Nas aulas de ciências, ensina-se o criacionismo.

Nos livros escolares, a ditadura é chamada de “movimento” e aspectos positivos da prática de tortura em seres humanos são apresentados aos alunos. Os alunos são obrigados a orar antes das aulas e ensina-se o criacionismo nas aulas de ciências.

O desmatamento atinge níveis recordes. As previsões são de que a Amazônia, após a permissão da exploração do parque Nacional do Xingu por uma mineradora dos Estados Unidos, seja reduzida a um quarto do tamanho nos próximos dez anos. O presidente também estabeleceu, via decreto, áreas para “desmate legal” de madeira. Com isso, muitas árvores amazônicas também entraram para a lista de espécies em extinção.

LGBTs são caçados nas ruas por “esquadrões bolsonaristas” e obrigados a se vestir de acordo com as “normas de conduta” baixadas pela presidência da República: para manter a “moral e os bons costumes”, a polícia pode enquadrar em “atentado ao pudor” quem se vestir “em desacordo” com o gênero de seu registro civil. Homossexuais não podem manifestar afeto abertamente nas ruas e, ao se assumirem, ficam impedidos de ocupar cargos públicos. Se continuarem no armário, tudo bem. Bolsonaro revogou a lei que dá o direito aos transgêneros de ter um documento de identidade de acordo com seu nome social, marginalizando-os da sociedade.

O presidente também revogou a lei do feminicídio, que tipificou o crime que atinge mulheres por sua condição de gênero. Com isso, este tipo de crime está cada vez mais em ascensão, dando o Brasil o triste recorde de campeão mundial em feminicídios. O fato de o presidente ter defendido que apenas armar as mulheres seria suficiente para diminuir mostrou-se falso, já que os ex-maridos e companheiros também andam armados.

Com a venda da Petrobras para uma estatal norueguesa, os preços do combustível e do gás de cozinha triplicaram em relação ao governo Dilma Rousseff, do PT. O litro da gasolina já custa 10 reais e o botijão sai por até 200 reais em algumas regiões, maior preço de toda a história. O preço do diesel também explodiu, mas os caminhoneiros não podem protestar porque Bolsonaro sancionou um projeto de sua própria autoria que pune com até 4 anos de cadeia quem obstruir estradas.

A Globo e a Folha, perseguidas por Jair Bolsonaro desde o primeiro dia no cargo, estão à beira da falência. Os outros jornais, TVs e revistas que apoiaram abertamente sua campanha mostram apenas os aspectos favoráveis do governo, aprovadas por um “supervisor” da própria empresa de comunicação. “É preciso transmitir otimismo, isso é bom para o país”, justificam os donos da mídia. Os veículos alternativos foram proibidos, acusados de disseminar “fake news”.

O litro da gasolina já custa 10 reais e o botijão sai por até 200 reais. O diesel também explodiu, mas os caminhoneiros não podem protestar porque Bolsonaro sancionou um projeto de sua própria autoria que pune com até 4 anos de cadeia quem obstruir estradas.

A perseguição a pessoas de esquerda é cotidiana, como prometeu o candidato durante a campanha: “ou vão para fora ou vão para a cadeia”. Uma reforma política extinguiu o PT e o PCdoB foi proibido de usar a palavra “comunista” em sua sigla. Um projeto do filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, tornou crime o comunismo no país. Utilizar os símbolos da foice e do martelo já é motivo suficiente para ir para a prisão.

Líderes opositores e cidadãos comuns fazem fila diante das embaixadas de países europeus em busca de asilo, enquanto a propaganda governamental repete o slogan da ditadura, ops, do movimento militar: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Lá fora, o país já é conhecido pela alcunha de “as Filipinas da América do Sul”.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Porque jamais nos vencerão

Escrito por Fernando Brito - Blog O Tijolaço

Se o Brasil tivesse uma imprensa digna da sua missão de informar, o Brasil não estaria à beira de cair sob o tacão do fascismo.

Se o Brasil tivesse instituições dignas de sua missão constitucional, não estaria na iminência de viver sob uma ditadura.

Se o Brasil tivesse liberais dignos de princípios e não amantes da velhacaria e de interesses eleitoreiros não estaria ao ponto de descer para a treva do autoritarismo.

Se Brasil tivesse uma elite econômica que amasse o país que sustenta sua fartura não estaria a um passo de regressarmos a escravatura.

Mas este país não os tem e por isso assistimos, indefesos, vê-lo atirado no lixo, submetido a um governante tosco, primário, imbecil, capaz de negar o direito mais básico que tem cada ser humano que aqui vive: o direito de ser brasileiro.

Quem assistir ao vídeo onde o Sr. Jair Bolsonaro despeja, com um discurso gutural o seu desejo de expulsar do país todos aqueles que não concordarem ou se submeterem a sua vontade fascista não pode deixar de perceber quão escura é a treva em que ele lançará esse país.

Desde Médici ninguém ameaçava um brasileiro com o exílio.

Mesmo os “bem-postos” – juízes, promotores, deputados, empresários, “mercadistas” – que odeiam o povo simples e humilde desse país não podem deixar de ver que vamos ser mergulhados na selva da violência estatal, numa situação em que as grandes maiorias da população serão submetidas à alternativa entre a vassalagem ou a insurreição.

As altas patentes militares, que aderem e se submetem a um capitãozinho “bunda-suja”, que há 30 anos garatujava no papel  planos de explodir bombas em quartéis para obter salário melhor –  se não sabem, deveriam saber  – enfiaram as forças armadas na idolatria da indisciplina, da conspiração, da deformação de só ter coragem de apontar as armas para seu próprio povo, o que as decai à condição que Caxias rejeitou, a de capitães do mato.

Errem. Suicidem-se. Escondam numa votação escandalosamente manipulada, onde a boa-fé do povo brasileiro aceita ver como “corruptos” os que nem de longe, mesmo na sua vileza, os que praticam a mais vil das corrupções: a de vender o Brasil, a de vender os direitos do nosso povo, a de vender o sagrado bem da liberdade para instaurar um governo de pústulas, de tatibitatis, de gente microcéfala e, pior, genuflexa ao ponto de bater continência para a bandeira norte-americana.

É de repetir Castro Alves e gritar para que Andrada arranque dos ares seu pendão para que não sirva de mortalha às liberdades.

O nazismo teve seu ápice, teve multidões, teve seus braços erguidos no “heil” de milhares encantados, hipnotizados.

Os que ousaram resistir teriam passado anos como ratos em suas tocas não fosse o fato de que eram homens e mulheres cercados pelos ratos.

Quis-se avançar como um Brasil de todos. Ninguém foi perseguido, nenhuma bolsa foi saqueada, nem mesmo os salões foram violados. Apenas – e muito timidamente entreabriu-se suas portas para que outros pudessem entrar.

Será que é ofensa demais ver o rosto cafuzo, mulato, crestado do sol ao seu lado no shopping, no avião, na loja? É tanto o desprezo à carne da qual se nutrem ao sangue do qual bebem, aos pobres que os fazem ricos?

Eis, senhores, numa palavra, a torpeza de seu crime. Querem a morte de quem os nutre, de quem lhes constrói as casas de luxo, as mansões, de quem compra seus produtos, de quem é escorchado por seus bancos, de quem consome as porcarias que colocam no mercado? Querem o sangue de quem nunca lhes tirou uma gota de seu champanhe?

Há, porém, uma arma mortal e sem defesa, apontada contra os senhores.

Chama-se história, responde pelo nome de marcha incontível dos povos pelos seus direitos e liberdades. Neguem-na, persigam-na, prendam-na, exilem-na: nada adiantará.

Ela triunfa. Sempre haverá festa quando ela voltar e vocês se forem. É certo que haverá dores, haverá filhos separados dos pais, haverá vidas interrompidas, algumas perdidas.

Ainda há tempo para um difícil acesso de lucidez, tão mais difícil quanto mais covardes são aqueles que poderiam provoca-lo.

Mesmo assim, a causa de vocês é perdida, inviável, perversa. Há e haverá sempre brasileiros que não se vergarão que seja de onde for, estarão de pé, a enfrenta-los. Vocês não têm mais a censura e o silêncio que tiveram, há meio século para implantar uma ditadura.

Vocês são os zumbis do tempo que se foi e não adianta que avancem como hordas ameaçadoras.

Nós somos a vida e a humanidade, e a vida humana triunfará.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Aliados de Bolsonaro usando o WhatsApp para espalhar notícias falsas


Damir Mujezinovic - The Inquisitr - Tradução: Google

Como a Inquisitr relatou anteriormente, o candidato presidencial de extrema direita Jair Bolsonaro está caminhando para a vitória no Brasil. Bolsonaro obteve 46,7% dos votos no primeiro turno, enquanto o esquerdista Fernando Haddad obteve apenas 28,37%.

Enquanto alguns compararam a iminente eleição de Bolsonaro aos agora-EUA. A ascendência do presidente Donald Trump em 2016, acredita-se que Bolsonaro está muito mais à direita de Trump. Bolsonaro é, na verdade, um defensor da ditadura militar, afeiçoado à tortura e à pena de morte, e conhecido por frequentemente fazer comentários sexistas e racistas, homofóbicos e sexistas.

Assim como outros populistas de extrema direita, Bolsonaro é conhecido por usar notícias falsas para ampliar sua retórica violenta. Mas, em vez de usar meios agora convencionais de espalhar falsidades - mídias sociais como as plataformas Facebook e Twitter -, o Bolsonaro se voltou para outra plataforma de propriedade da Zuckerberg, o aplicativo móvel de mensagens instantâneas WhatsApp.

Um grupo de empresários brasileiros está financiando a campanha de desinformação de Bolsonaro, informa o jornal The Guardian.

“A prática é ilegal, pois constitui doações de campanha não declaradas pelas empresas, algo banido pela legislação eleitoral”, observou a mídia brasileira.

O adversário de Bolsonaro, Fernando Haddad, acusou o candidato de extrema-direita de fraude eleitoral, acrescentando que 156 empresas brasileiras financiaram a campanha de desinformação WhatsApp de Bolsonaro.

"As pessoas de negócios que se envolveram com isso terão que pagar judicialmente - e já sabemos de várias pessoas que participaram", disse Haddad.

A campanha de Bolsonaro e o próprio Jair Bolsonaro rejeitaram as alegações, chamando-as de notícias falsas.

"Eu não posso controlar se um empresário que é amigo de mim está fazendo isso. Eu sei que é contra a lei ”, disse Bolsonaro à mídia local.

Em um breve comunicado fornecido à Reuters, um representante do WhatsApp disse que o relatório de fraude eleitoral nas eleições presidenciais do Brasil está sendo levado a sério, acrescentando que o WhatsApp baniu "centenas de milhares de contas" desde o início da eleição.

O jornalista americano vencedor do Prêmio Pulitzer, residente no Brasil, Glenn Greenwald, observou no Twitter que o Bolsonaro - ao contrário de seus pares ocidentais - conseguiu armar o WhatsApp.



Segundo dados publicados pelo Buzzfeed, cerca de 40% dos brasileiros usam o WhatsApp. Como as mensagens do WhatsApp são criptografadas, é impossível monitorar a plataforma ou avaliar o escopo da campanha de notícias falsas de Bolsonaro.

No Brasil, o WhatsApp também é uma fonte de notícias popular, já que 60% dos eleitores lêem a maioria de suas notícias na plataforma, de acordo com pesquisa. Bolsonaro, observa Buzzfeed, planeja ampliar o armamento do WhatsApp após a eleição e quer impedir que os juízes do país suspendam o serviço WhatsApp.


Como nem mesmo o WhatsApp consegue ler as mensagens criptografadas, ainda não está claro o que a empresa poderia fazer para impedir o abuso na plataforma de mensagens instantâneas.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Ascensão do bolsonarismo e os rumos do campo progressista

Escrito por Rodrigo Leão - Le Monde Diplomatique

O bolsonarismo atende aos anseios da sociedade ao oferecer algo aparentemente novo e aqui exige um cuidado fundamental: o novo não é na figura, mas na forma. A forma de comunicar, de tratar dos problemas e achar soluções

Independente dos resultados do segundo turno das eleições, a nova bancada de deputados, senadores e governadores expõe uma nova configuração da política nacional marcada pela ascensão de novas forças políticas e rupturas de antigas estruturas de poder materializada na destruição da “velha direita democrática”, aquela formada após a Constituição de 1988, e numa crescente fragmentação do campo progressista, sem que isso significasse uma ampliação relevante da sua representação no campo institucional.


07/06/2017- Brasília- DF, Brasil- Eduardo Bolsonaro, e o pai, Jair Bolsonaro após o Conselho de Ética da Câmara arquivar duas representações (12/17 e 13/17) contra o deputado por quebra do decoro. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agencia Brasil
Para essa nova força, os partidos são apenas mera formalidade para a disputa política, sua ferramenta de representação está na massificação das redes sociais. E aqui se caracteriza uma primeira diferença importante entre essa nova direita e as velhas forças políticas, sejam elas de direita ou esquerda.

A nova direita opta por um caminho de comunicação aparentemente excêntrico porém não desconhecido: por um lado, inicia uma espécie de ataque sistêmico aos meios de comunicação tradicionais de massa associado à direita e às novas formas de comunicação criadas pelo campo progressista, jogando todos num mesmo balaio: parciais, ideológicos e imorais. Por outro lado, aproveitando-se da velocidade e da capilaridade das redes sociais, cria um instrumento próprio de comunicação, extremamente despolitizado, personalizado, de fácil entendimento e mais raivoso.

Essa forma de comunicação permite a ascensão da nova direita, principalmente do bolsonarismo, impulsionando sua base a partir de dois mantras; i) o discurso de ódio contra tudo que está associado à velha política e; ii) a associação do caos político, social e econômico do país à ruptura de determinados padrões culturais.

Essa narrativa ganha ainda mais aderência com a devassa à política tradicional provocada pela forma de combate à corrupção da Lava-Jato. Como adverte Reinaldo Azevedo, em sua coluna na Folha de São Paulo, em agosto de 2018, “os populismos que nos ameaçam são a consequência do processo de destruição da política a que passaram a se dedicar o MPF, a PF e setores do Judiciário”. O vácuo politico, por sua vez, é rapidamente ocupado pela narrativa do “novo” e do apelo a moralidade bolsonarista.

Um segundo aspecto conectado ao bolsonarismo é a construção de uma nova base social, bastante fragmentada, heterogênea e recheada de contradições. Com o advento das redes sociais ela não precisa ser coesa socialmente, pelo contrário. A grande chave agora é a criação de um laço alimentado pelo discurso simplório, tosco, aparentemente honesto, desconexo entre si, mas que deve ser capaz de fazer a mensagem chegar a um número crescente de pessoas. Alguns exemplos:

i) A ignorância e a raiva para tratar de assuntos econômicos, educacionais e de saúde não são vistas mais como despreparo, mas sim como um atributo de transparência, indignação e honestidade, de um político que não quer enganar o eleitor;

ii) A crise educacional do país é uma questão moral e ideológica: primeiro de conteúdo, tais como ideologia de gênero, discussões filosóficas, que estaria desviando o foco do ensino e, segundo, de ausência de disciplina e desrespeito ao professor. A solução é alterar a diretriz de conteúdo e aumentar a rigidez nas escolas.

iii) A solução para a violência é armar o cidadão de bem, assim, como há um número maior de cidadãos de bem do que maus cidadãos, haveria uma espécie de extermínio natural dos maus cidadãos, os marginalizados.

Ao unir esses três discursos, o bolsonarismo consegue se conectar de forma rápida à parte da elite antilulista que julga a corrupção como o maior mal do país, aos professores cansados de mau tratamento nas escolas, à parcela mais pobre e religiosa da população defensora de hábitos bastante conservadores e, por fim, à população amedrontada pela violência. A novidade aqui é que não há pautas amplas e coletivas, mas sim pontuais e bastante individualizadas.

Um terceiro aspecto importante diz respeito a estrutura econômica e financeira que sustenta a formação do bolsonarismo. Saem de cena os grandes conglomerados financeiros e os grupos empresarias industriais, típicos financiadores de campanha da velha direita e esquerda e, entram no seu lugar, os grandes grupos de comércio de varejo nacional e o empresariado evangélico. Há uma forte identidade de classe, discursos e valores entre os empresários e o bolsonarismo.


Carreata pelas ruas de Brasília a favor do candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro.
Dessa forma, rompe-se o padrão de relação direta de financiamento que passa a ser substituída por uma nova forma indireta. Isto é, os recursos não são mais direcionados à campanha, mas diretamente ao eleitor, utilizando a forte capilaridade dessas empresas e igrejas que detém um poder avassalador sobre os seus funcionários e fieis. Aqui não há problemas em gerar constrangimentos, violência, afinal esses são dois dos valores compartilhados pelo líder político e seu financiador.

A desindustrialização observada desde o governo FHC, a profunda liberalização econômica e a retomada do crescimento do consumo também traz impactos fundamentais ao tecido social contemporâneo: desorganiza a base historicamente associada aos partidos progressistas e da velha direita. Em substituição, expande-se, parafraseando Marx, um exército de reserva de mão de obra, por um lado, e uma demanda gigantesca fruto da expansão extraordinária do consumo desde o governo FHC, por outro. Com isso, grandes marcas como Americanas, Havan se expandem, criam uma rede extensa de consumidores e constituem uma base imensa e capilarizada de trabalhadores pelo país; esta bastante abandonada pelas estruturas tradicionais de representação política e sindical. Isso sem contar que, no cenário de caos político, moral e econômico, há um aprofundamento da relação da população mais vulnerável com os grandes espaços religiosos.

Enfim, o bolsonarismo atende aos anseios da sociedade ao oferecer algo aparentemente novo e aqui exige um cuidado fundamental: o novo não é na figura, mas na forma. A forma de comunicar, de tratar dos problemas e achar soluções. As mensagens são simples, palatáveis, os problemas são de culpa de todos que estiveram e estão por aí, bem como as soluções residem na mudança da “velha forma” de fazer política. Com todas as reservas, é isso que Mao Tse Tung fez na China nos anos 1930 para se consolidar como uma alternativa ao poder imperial. Esse exemplo é fundamental para entender que, nesse fenômeno, o espectro ideológico da inovação não é decisivo.

Além disso, esse novo representado pelo bolsonarismo possui uma forte conexão com os valores tradicionais da nossa sociedade, aqueles da Senzala e não da Casa Grande. O bolsonarismo presta um tipo de solidariedade ao resgate desses valores que, nessa perspectiva, são fundamentais para enfrentar a crise moral vivida no país.

Enquanto isso, o campo progressista disputa os valores da Casa Grande, digladiando com a velha direita sobre os responsáveis da crise econômica e do desastre social, sem compreender que todas as forças politicas tradicionais seriam culpabilizadas. E, mais grave: como solução apresenta a alternativa – fracassada, diga-se de passagem – da união do “velho” assentada em forças políticas do lulismo, em menor escala, do brizolismo, e com candidatos exaustivamente conectados ao passado. Coloca-se aqui um dilema: precisa-se do lulismo, mas também sua transição é urgente. O que fazer?

Essa é tarefa para o médio e longo prazo, no curto isso significa perguntar se a frente progressista tem capacidade de trazer algo novo em relação ao bolsonarismo nos próximos vinte dias? A missão é hercúlea e a capacidade de alcançar sucesso é mais difícil ainda. No entanto, a chance de êxito depende da compreensão das reais demandas do povo e de uma nova forma de se comunicar a ele, sempre lembrando do sinal já dado no primeiro turno: somente a união do velho não é mais suficiente, a menos que consiga-se associar o bolsonarismo ao que há de mais retrógrado na política.

Do passado, ficam apenas a necessidade de voltar aos escritos de Gilberto Freyre, de compreender melhor a história da ascensão maoísta (e de outras novas lideranças que surgiram em diferentes momentos) e, principalmente, de tirar lições de como se conectar com a alma do povo mais sofrido do país. Essa última tarefa, um certo partido brasileiro foi capaz de fazer com rara maestria há cerca de quarenta anos atrás.

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*Rodrigo Leão é mestre em desenvolvimento econômico (Unicamp), pesquisador-visitante do Núcleo de Estudos de Conjuntura Econômica da UFBA e diretor-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).

sábado, 6 de outubro de 2018

O que há por trás do Mito

Escrito por Maria José Trindade - GGN - O Jornal de todos Brasis

Ontem, apenas por curiosidade, glooguei a palavra mito no meu computador. Surpreendi-me com o resultado. Mais de 50 palavras foram relacionadas à minha procura. Fábula, narrativa, legenda, história, lenda, crença, metáfora, símbolo, imaginário, mentira, quimera, parábola, enigma, esfinge, mistério, conto, ficção, história, invenção, novela, segredo, quimera, devaneio, fantasia, sonho, utopia, ilusão. Ao final, figurava entre os resultados: bolsomito, falso, mentira.

Tive certeza de que é preciso falar sobre isso. O mito irrompe com força nos tempos mais antigos da história do pensamento humano, mas, ainda hoje, continuamos a fabricar nossos mitos como nos tempos de Homero.

A diferença é que hoje eles são construídos midiaticamente sob a forma de ícones, vedetes do sistema midiático. Nós não reparamos neles. Até que, abruptamente, incorporam-se numa figura qualquer, um “salvador da pátria”, forma de sebastianismo que herdamos dos nossos colonizadores portugueses.

Neste momento, aqui no Brasil, este Mito tem nome. Seu nome é Coiso, representante da direita chucra.

Sua aceitação decorre da sua retórica violenta, bate-pronto, boca dura que diz o que quer, sem rodeios ou eufemismos. Seu jeito truculento é aplaudido pelos segmentos mais violentos da sociedade, como policiais e milicianos assassinos, que o vêm como herói. Jovens urbanos de classe média e da elite consideram-no “cool e divertido”, enquanto os do interior do país, aqueles de chapéu que escondem sua arma no porta-luvas da camionete, confirmam sua alienação dizendo-se atraídos por sua rebeldia e honestidade(?). Na base da pirâmide, parcelas significativas da periferia que sobrevivem sob o fogo cruzado da polícia e dos bandidos, abandonadas à própria sorte, identificam-se com o discurso ultraconservador do militar, para quem “bandido bom é bandido morto”.

O quê, exatamente, o tal Mito fajuto tem a oferecer ao Brasil?

#EleNão é honesto!
Citado na Lista de Furnas como receptor de propinas; acusado de sonegação de impostos, de receber propina da JBS e de enriquecimento ilícito; suspeito de lavagem de dinheiro e de envolvimento em Caixa 2 de campanha; réu confesso por pagar funcionária-fantasma para sua casa de praia com dinheiro do contribuinte; manipulador de mentiras, via robôs, na internet

#EleNão é competente!
Em quase três décadas de vida pública, aprovou apenas dois projetos como deputado federal e nunca ocupou qualquer cargo executivo. Nem como prefeito de qualquer cidade.

#EleNão é democrata
Louva a ditadura e a tortura, não reconhece a Constituição e não tolera a diferença.

#EleNão é tolerante
Confessa-se racista, misógino e homofóbico

Além disso
#EleNão tem propostas
#EleNão tem base parlamentar de apoio
#EleNão se expõe

Esconde-se porque não tem nada a dizer. Foge do debate como o diabo da cruz. O Coiso é uma construção midiática sem fundamento, vazia de conteúdo. Só fachada.

Não podemos reduzir nosso entendimento sobre tal candidato à educação e formação intelectual da população brasileira ou à ignorância política dos seus seguidores. Isto é comprovável. Basta tentar dialogar com tais segmentos para confirmar sua desinformação. O mais preocupante é perceber que suas malditas teses encontram eco numa parcela expressiva da sociedade, confirmando a aderência às suas ideias e práticas.

Divinos para os gregos ou perigosamente humanos nos tempos atuais, os mitos continuam a nos perturbar. Nosso esforço de interpretação é, na verdade, um olhar-se no espelho. A imagem que vemos é a nossa própria imagem transfigurada. Mitos não são mais do que a decifração de nós mesmos. Contra eles, só temos a razão.

Neste domingo de escolhas importantes para o país, espero que nossa razão prevaleça.