terça-feira, 25 de setembro de 2018

A lorota de que o Nazismo seria de esquerda tem intenção de criminalizar as forças progressivas

Com o fim do pensamento único causado pelo surgimento da internet, que favoreceu a liberdade de expressão - bastante limitada na mídia oficial (TVs, rádios, jornais, revistas) - que surgiu para o bem mas também para o mal. 

Todo mundo resolveu brincar de "revisionismo histórico" e a falta de noção do que é real ou não e o desprezo pela análise intelectual favoreceram o surgimento de um monte de lendas e boatos que desafiam a lógica e o bom senso.

As esquerdas, que representam as forças progressistas e que tem lutado com muito dificuldade pelos direitos da maior parte das pessoas, sempre incomodou as elites gananciosas que querem todos os direitos e benefícios exclusivos para si.

Por isso, eles não cansam de difamar as esquerdas colocando os defeitos tipicamente direitistas nas forças progressistas, criando uma inversão de valores que transforma magnatas gananciosos em "benfeitores altruístas", enganando a opinião pública, forçando-as a aderir às forças conservadoras que desejam manter os privilégios das elites.

A idiota tese de que o Nazismo era de esquerda, inventada pelos extremistas de direita brasileiros é um exemplo disso. A ideia é dar características de vilania às forças progressistas, além de isentar os fascistas brasileiros de qualquer cumplicidade com o Nazismo.

O Nazismo, com a finalidade de fortalecer o Capitalismo, praticou um enorme genocídio para diminuir a quantidade de pessoas e garantir a exclusividade de direitos e benefícios apenas para as grandes elites alemãs. Os extremistas brasileiros não querem ficar com a culpa e a jogam para cima das esquerdas, com a finalidade de criminalizá-las e tirar do cotidiano político.

Apesar da enorme semelhança entre o extremismo de direita brasileiro e o fascismo alemão conhecido como Nazismo, os brasileiros sabem que a comparação pega mal e pode punir os fascistas tupiniquins. É como recusar a segurar uma bomba prestes a estourar nas mãos de quem segura.

Inventar que o nazismo era de esquerda é uma excelente forma de criminalizar as forças progressistas e tranquilizar as elites de que a renda e direitos nunca serão repartidos, ficando retidos nas contas bancárias e nas mansões das grandes elites, favorecendo e aumentando a concentração de renda e de poder. Dá para os extremistas de direita se fingirem de democratas e atraírem para si a simpatia da opinião pública, favorecendo a satisfação de seus interesses.

Está mais do que na cara que a extrema direita brasileira é igual aos nazistas. A tentativa de diferenciar as duas ideologias pelo rótulo é na verdade uma oportunidade de se aproveitar da ignorância da maioria das pessoas e jogá-las contra adversários. Se o Nazismo não fosse malvisto, certamente os extremistas brasileiro teriam o maior orgulho de se rotularem neonazistas. Pois no fundo, eles nunca passam disso.

O nazismo é de extrema direita: igualzinho ao que pensam os admiradores e seguidores do "Coiso".

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Como seria o governo Bolsonaro

Bolsonaro lidera as pesquisas da grande mídia e isso é muito preocupante. Mostra que boa parte da população desconhece o programa de governo de seu candidato, que promete arrasar com o país para satisfazer os interesses de um poucos bem-vividos.

Preocupado com o crescimento do candidato de extrema-direita, vamos listar aqui as características de como estará o país sob o comando do ex-militar. Se preparem que o cenário é um misto de film de terror, filme de ação e de filme catástrofe, os três juntos. Bom lembrar que os pobres que votarão no ex-militar são os que mais vão sofrer em sua gestão.

DEMOCRACIA CANCELADA - Sob o comando de uma equipe militar e sob a bênção dos neo-pentecostais, Bolsonaro reservará para si e para sua equipe a exclusividade da decisão sobre o que acontecerá no país. A Constituição de 1988 será substituída por outra baseada nas convicções pessoais de Bolsonaro e o povo definitivamente perderá sua liberdade e seus direitos, numa ditadura que promete se pior que a de 1964-1985.

TEOCRACIA - Bolsonaro já garantiu que, por ele, o estado laico acaba. Todos serão obrigados a serem "cristãos". Somente as religiões ligadas ao Cristianismo (Catolicismo, Igrejas Evangélicas e o "Espiritismo" brasileiro) serão respeitadas. Religiões não-cristãs serão proibidas e até perseguidas. Bolsonaro pretende também fazer uma teocracia, um governo com base em dogmas religiosos e várias leis serão influenciadas por conteúdos bíblicos, sobretudo no ponto de vista evangélico.

EDUCAÇÃO - Pensar será proibido. A educação volta a ser direcionada exclusivamente ao mercado de trabalho e ao proselitismo de um pensamento conservador. A História será contada pelo ponto de vista dos vencedores e não raramente será alterada com mentiras, omissões e distorções ara favorecer interesses e personalidades. 

A diversidade de pensamento e costumes será condenada e a religiosidade também influenciará a educação, cujo ensino religioso cristão seria obrigatório aos alunos. Escolas públicas implantarão o projeto "Escola sem Partido" e as privadas seguirão o projeto "Kroton", na linha neoliberal. Universidades serão todas pagas.

CULTURA - Tratada como supérfluo, este setor será desprezado pelo governo de Bolsonaro. Apenas a "cultura" de massa, sustentada por grandes corporações e por isso explicitamente comercial, terá espaço e o entretenimento será utilizado como uma espécie de anestésico cerebral para a sociedade. A cultura alternativa encontrará dificuldades para se manter.

ECONOMIA - Paulo Guedes, responsável pelo program de Bolsonaro, já garantiu que continuará o projeto de Temer, de forma mais rápida e agressiva. Empresas públicas, inclusive as estratégicas, serão todas privatizadas. Os direitos serão eliminados e a desigualdade entre ricos e pobres vai aumentar. Os pobres pagarão mais impostos e os ricos, menos. 

Com a redução de consumo devido a redução brusca de salários, micos, medias e empresas pequenas decretarão falência por falta de clientela. Desemprego aumentará, gerando caos no funcionamento da economia. Empresas ligadas a entretenimento e viagens, consideradas supérfluos, também fecharão, pois o povo, sem dinheiro, preferirá guardar para coisas mais necessárias, como comida e o pagamento de contas essenciais, como água, luz e gás.

MORADIA - Haverá o aumento de moradores de rua, pois o salário insuficiente não permitirá nem mesmo o pagamento de aluguel. A especulação imobiliária crescerá, apenas para satisfazer ricos e classe média. 

RELAÇÕES EXTERIORES - Bolsonaro já está tendo uma imagem negativa no exterior, o que poderá dificultar a diplomacia com outras nações.

SAÚDE - O sistema público será extinto, pois haverá a privatização de hospitais e clinicas e quem não tiver dinheiro para um bom plano de saúde, morrerá por falta de assistência. O sistema privado continuará intocável, gerando muitos lucros.

SOCIEDADE - Haverá o surgimento de uma guerra civil, pois os bolsonaristas se sentirão livres para agredir quem quiser, pelos mais vulgares motivos. A consciência de ter um representante deles no poder irá empoderar preconceituosos que acharão no "direito" de imporem seu ponto de vista para a sociedade toda, poupando apenas quem corresponde a convicção pessoal dos admiradores do ex-militar.

SEGURANÇA - Carro-chefe do governo Bolsonaro, a segurança dará a oportunidade para sua equipe combater, sob pretexto de lutas contra o crime contra a corrupção, quaisquer um que corresponda ao oposto das convicções pessoais do ex-militar. Negros, índios, gays, mulheres, ateus, não-cristãos, socialistas, consumidores de drogas, "ladrões de galinha", entre outros, serão todos criminalizados. Prisões políticas ocorrerão com maior frequência. Haverá o aumento da violência.

Este é o cenário de um Brasil sob o comando de Bolsonaro. se gosta dele, assuma os danos.

sábado, 8 de setembro de 2018

Os seis motivos que garantem Bolsonaro no segundo turno

OBS: Reproduzo aqui este excelente texto de Caio Henrique de Almeida, que faz um diagnóstico preciso sobre o que significa o fenômeno fascista Bolsonaro nas eleições atuais. 

Isso mostra que as pessoas não estão a fim de pensar na hora de resolver os problemas do país, que em sua maioria tem origem econômica. Ou seja, problemas econômicos se resolvem a bala, com a bênção de Deus.

Os seis motivos que garantem Bolsonaro no segundo turno

Caio Henrique de Almeida - Blog do Sócio - Carta Capital

Eis os pontos:

1. O medo

O medo é o primeiro sintoma da mudança. No sentido de “ter medo” da mudança. Daquilo que mudou. Jair Bolsonaro representa uma parcela significativa da população que está com “medo”. Um medo social devido às condições materiais e imateriais do momento histórico que a sociedade brasileira enfrenta.

O uso simbólico do medo é importante para a candidatura de Bolsonaro. Sua equipe e sua performance individual trabalham muito bem com o sentimento de impotência coletiva. Já conquistaram parte do eleitorado.

O medo caminha ao lado de outras características, como a insegurança e a falta de proteção social. Então, o medo, como fato social e fenômeno coletivo, é o primeiro elemento que pode encaminhar Bolsonaro para o segundo turno.

2. O desemprego

O desemprego é o segundo elemento. Atualmente, a taxa está em 13,1% . O que atinge diretamente 13,7 milhões de indivíduos. Indiretamente, o número supera a faixa de 27 milhões à procura de emprego. O desalento atinge 4,8 milhões.

O mercado de trabalho mostra que não vai reagir em 2018. O que favorece o discurso raivoso e de ódio de Bolsonaro. Os desempregados estão sem paciência para ouvir discursos progressistas. O sentimento de frustração é grande. Uma forma de reagir será na urna, pelo voto de protesto em Bolsonaro. Assim, o candidato da extrema-direita consegue expandir seus votos entre os desempregados.

3. O precariado

O terceiro motivo da ida de Bolsonaro ao segundo turno é o precariado. Esse grupo social possui algumas características que favorecem o candidato.

O precariado surge a partir do modelo de acumulação flexível do capital e da financeirização da vida. São indivíduos fragmentados em suas ações e apáticos politicamente. Que encontram dificuldades em compartilhar um projeto político comum.

Construir uma voz coletiva para o precariado é uma tarefa complexa. Manifestam sua raiva, aflições e inseguranças de forma individual, o que dificulta a organização coletiva.

O precariado não se constitui como classe social. Não se identifica com sindicatos e partidos tradicionais. São frustrados individualmente que não canalizam suas forças para a política. Mas pode acontecer desse grupo ser mobilizado. Um líder carismático pode mobilizar essa base de eleitores. Bolsonaro possui a simpatia do precariado.

4. PT x PSDB

A polarização do sistema político entre PT vs. PSDB desde a redemocratização favorece à campanha de Bolsonaro. Passando por 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014. A última surpresa foi Marina Silva em 2014 no primeiro turno.

Essa polarização abriu espaço para uma “terceira via” reacionária. Bolsonaro foi produzido pelo sistema político. Com a prisão do Lula, as articulações do PT em torno de Fernando Haddad e Manuela D´Ávila não agregaram valor à campanha petista. Lula preso mobiliza mais que Haddad e Manuela livres.

O PSDB, com Geraldo Alckmin e sua aliança com o Centrão, fez o jogo da política que os eleitores não aceitam mais. Bolsonaro se aproveita para impor seu discurso contra a corrupção e a “velha” política.

5. A juventude

A juventude pode ser vista como o futuro precariado. Foram, num primeiro momento, mobilizados pelo movimento “Escola sem Partido”. Posteriormente, se identificaram com a agenda política conservadora.

São jovens que participarão da sua primeira eleição. Estão empolgados com a chance de vitória do seu candidato. A ideia de mudança motiva a moçada. São ótimos cabos eleitorais do Bolsonaro.

Além de ajudar a desqualificar o debate político, prejudicando a candidatura de Ciro Gomes e Alckmin. Favorecendo a candidatura de Bolsonaro.

A juventude se apresenta como uma base sólida de eleitores. Disposta a defender com unhas e dentes seu representante.

 6. A falência da política

A falência da política caminha em companhia da descrença na democracia. Quanto mais avança o discurso de que as “instituições estão funcionando” e “estão fortes”, mais a democracia perde a sua legitimidade.

A democracia é um valor em si mesmo. São os cidadãos a participar do processo decisório. Se isso acontece de verdade, não haveria motivos para reforçar o discurso de que as “instituições funcionam”.

A falência da política é uma forma de morte da democracia. O que passa a importar é o desempenho e a performance individual do político. De um personagem que não está preocupado com as articulações, projetos e ideias.

Os eleitores estão descrentes com o sistema político, que implodiu com o golpe parlamentar. E agora, em 2018, encontra em Bolsonaro um espelho que reflete sua própria tragédia.

Uma potência individual que despreza a sociedade tem chances reais de ir para o segundo turno e ganhar a eleição. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O otimismo nada prudente dos esquerdistas

O clima de "já ganhou" das esquerdas é algo feito para a gente se preocupar. Praticamente todas as esquerdas estão otimistas com a volta das esquerdas ao poder, como se a vaga na confortável cadeira presidencial estivesse garantida e fosse inviolável. 

Mas esquecem as esquerdas que as forças opositoras são muito fortes. Imagine um doberman raivoso, dias sem comer, mas que tivesse o tamanho de uma baleia gigantesca. Esta é a força que tem condições de tirar Lula ou seu candidato na marra para retomar o poder e dar continuidade ao golpe. 

Bom lembrar que ninguém deu um golpe engenhoso para devolver o poder às forças que foram retiradas à força em 2016. Esses cachorrões grandes pode não ter apoio popular e muito menos razão. Mas tem muito dinheiro em suas contas e condições para pagar tudo e todos para que o sistema funcione como eles querem.

É mais de que urgente que as esquerdas criem um senso de prudência e se preparem para a possibilidade de um novo golpe, talvez pior que o de 2016. As nossas elites são gananciosas e não estão dispostas a repartir renda e direitos, mesmo que isso signifique uma estagnação econômica. nossas elites querem mesmo é acumular renda em grande volume e de forma imediata.

Por isso, não é exagero maginar que um plano secreto esteja em curso para que algo seja feito para que a esquerda seja impedida de uma forma ou de outra de tomar o poder em 2019.

Paremos com este otimismo. A voz do povo não é a voz das elites que controlam este país, com todos os recursos possíveis e impossíveis para fazerem o que quiserem.

As elites não estão nem aí com reputação. Farão o que puderem e não puderem para que seus interesses sejam priorizados e preservados.

Fiquemos de olho antes de comemorarmos e tomemos uma atitude que impeça qualquer tipo de novo golpe.

Mas prudência nunca foi uma qualidade marcante dos brasileiros. Mas é bom passar a ser. O mais rápido possível.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Sim, Bolsonaro é um mito.

Thomas de Toledo - Extraído do blog Esquerda Caviar

Sim, Bolsonaro é um mito. Ele é um mito do ódio a tudo o que significa civilização. Um mito dos sentimentos mais sombrios, violentos e ignorantes que foram represados pelo avanço dos valores iluministas e do Estado democrático de direito.

Bolsonaro é um mito para o empresário sonegador e explorador que sonha voltar a comprar escravos por arroba, mas que tem que se submeter à CLT e à Receita Federal.

Bolsonaro é um mito pro latifundiário que quer tomar terras de índios, grilar áreas públicas da União, usar agrotóxicos indiscriminadamente e empregar mão de obra escrava, mas que tem que se limitar pela legislação ambiental, social e trabalhista.

Bolsonaro é um mito para o homem que odeia a mulher e a subjuga pela violência, mas que agora tem que se conter pela Lei Maria da Penha.

Bolsonaro é um mito para as viúvas da ditadura que têm saudade de torturar, estuprar e matar aqueles que odiavam, mas que não podem mais fazer por causa dos tais direitos humanos.

Bolsonaro é um mito para aquele nazista que guarda relíquias da Alemanha de Hitler e faz musculação para agredir quem odeia, mas que é bloqueado por um tal código penal.

Bolsonaro é um mito para aquele pastor evangélico fundamentalista que pretende expandir seus negócios, mas que sempre encontra barreiras no fisco.

Bolsonaro é mito para aquele brasileiro com complexo de vira-latas que bate continência aos Estados Unidos, mas que estava indignado em ver o Brasil virar a 6a economia do mundo na Era Lula.

Sim, Bolsonaro é um mito para todo aquele que deseja expressar livremente seu ódio a comunistas, mulheres, negros, gays, muçulmanos, religiosos afro-brasileiros e imigrantes, mas que sempre são contidos em seus impulsos bestiais pelos valores e legislações do mundo civilizado.

Bolsonaro é, portanto, um mito que emerge das entranhas do intestino grosso daqueles que desejam odiar mas são proibidos. Dos que querem explorar, sonegar, grilar e roubar e dos que almejam ter armas para matar, mas não podem.

Bolsonaro é um mito da sombra de tudo aquilo que o Brasil não quis olhar, que foi empurrando para debaixo do tapete, mas que agora encontrou um porta-voz. Ele expressa a ignorância, o anti-intelectualismo e o que de pior o senso comum é capaz de produzir. Assim, seduz incautos e inconsequentes que classificam-se como "cidadãos de bem".

O Brasil está doente e Bolsonaro é apenas um sintoma visível. Mesmo que não seja eleito, os fantasmas que o "mito" ressuscitou, necessitarão de um bom tempo para serem exorcizados. Ele tem o papel de didaticamente mostrar aquilo que precisa ser curado, extirpado e banido. Quando este mito e tudo o que ele representa for derrotado, o Brasil estará curado. No seu lugar, um mito que representa a solidariedade, a paz e a harmonia deve ser instalado.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O analfabetismo político funcional

Por João Paulo Cunha - Brasil de Fato - Edição: Joana Tavares

O nível de conflagração política no país tem gerado uma falsa ideia de que há uma divisão racional entre diferentes visões de mundo. O Brasil não está dividido entre esquerda e direita, com suas ponderações que incorporam o centro como agente suavizante, de um lado ou de outro. O que se observa, na troca de ódios que alimenta o dia a dia da nação, é uma regressão ao nível da irracionalidade.

Muitos acreditam que ainda vale a pena conversar com amigos e familiares, colegas de trabalho e pessoas com as quais se relacionam informalmente, para apresentar seus pontos de vista e avançar até um consenso possível ou uma respeitosa discordância. Não estamos mais, infelizmente, nesse patamar. O sarrafo da inteligência já desceu ao nível do analfabetismo político funcional. Agora é hora da disputa de projetos para o país. A continuidade do golpe ou a reversão a um projeto popular interrompido.

Grande parte das pessoas não precisa de argumentos, bastam ideias soltas, afirmações rasteiras, slogans preconceituosos, vômitos moralistas, frases feitas. É o típico repertório de Bolsonaro e Daciolo. O capitão e o cabo, seguindo a vertente autoritária que sustenta seu modo de ser, se dão por satisfeitos com comandos curtos, típicos dos treinamentos que se dão no nível medular, sem chegar ao cérebro. Tudo que é mais complicado é jogado no colo de Deus ou do posto Ipiranga.

Estão na disputa exatamente para consolidar essa divisão. Ficam responsáveis pela pauta moralista, chauvinista e retrógrada, deixando as questões fundamentais do país na mão de especialistas convocados no mercado. São como aqueles peixes sem capacidade própria de sobrevivência, que ficam em torno de tubarões, alimentando-se de suas sobras. Com a diferença que pensam que são tubarões.

Fossem apenas os candidatos, teríamos um cenário lamentável. Mas são mais que isso: são candidatos, sobretudo Bolsonaro, que conquistam boa parte do eleitorado. Isso aponta para uma cadeia de transmissão dessa lógica de desvalorização das ideias. A agenda desses postulantes é o que menos importa. Eles se firmam em chavões irresponsáveis e no descrédito com a política. Quando se tornam relevantes numericamente, o alerta precisa acender.

A extrema direita entrou na eleição inflada pela mídia para assumir a linha auxiliar de combate ao PT e às esquerdas. A ideia era juntar o ideário liberal em economia, elevado à posição de verdade absoluta pela mídia comercial, com a estratégia pit bull no tocante a temas relativos a segurança e direitos humanos. Na hora certa, os boçais seriam descartados.

O que ocorreu foi que a incapacidade de sustentar um candidato viável de suas hostes, somado ao incentivo à estupidez, gerou um revés praticamente incontornável. Por outro lado, a crença na destruição da esquerda, sobretudo a partir do discurso moralizante anticorrupção do “país que eu quero para o futuro”, começou a fracassar em razão da recuperação da memória social e do sentimento real de perda. De emprego, saúde, segurança e direitos trabalhistas.

Está claro que a situação está péssima e que já foi melhor há não muito tempo. Nessa hora, não há manchete canalha ou comentarista de TV a cabo que convença que a economia está reagindo bem e que os empregos estão voltando. A persistência do voto declarado em Lula, mesmo preso e com jornadas incessantes de desmoralização, se explica. Como também se explicam as investidas judiciais extremamente politizadas e o acirramento da partidarização da mídia.

Nos dois acasos, o cidadão acompanhou nos últimos dias fatos patéticos. Na Justiça, o açodamento em tentar impedir o registro da candidatura petista com declarações histéricas de ministros das cortes superiores. Falou-se até em cobrar pelo prejuízo financeiro de realizar uma eleição num Estado que se diz democrático. Rosa Weber, assumindo a presidência do TSE, disse que não precisa esperar pedido de impugnação para agir, se prontificando a fazer de ofício o que não fez em outra ação no STF, quando votou contra a própria convicção. A PGR não esperou nem o sol se pôr para se manifestar, disputando as primícias com o MBL e Alexandre Frota.

A imprensa secundou a farsa, transformando o histórico episódio de um registro de candidatura feito por dezenas de milhares de cidadãos em marcha que atravessou o país em um ato de balbúrdia. E fez mais: a publicação de um artigo de Lula no New York Times deu vazão a um misto de dor-de-cotovelo e ridículo. No jornal O Globo, a colunista Miriam Leitão publicou coluna em que apontava o que faltou no texto de Lula. A Folha de S. Paulo foi ainda mais longe e convocou um jornalista gringo para escrever o artigo que deveria ter sido escrito por Lula.

Além de não engolirem o fato de serem furados por um jornal do lado de cima dos trópicos, não foram capazes de ler o que estava escrito, propondo derivativos. Os jornais brasileiros prezaram sempre por escrever a história que preferem registrar como plausível, no lugar de reportar a realidade como ela simplesmente é. Em lugar da manifestação da opinião livre, a copidescagem do real. O NYT não é petista, é apenas um jornal, o que parece inaceitável para a mídia brasileira.

A eleição tem um duro caminho pela frente. Nada está garantido até agora, nem mesmo a liberdade de voto. Mas muito mais duro será reverter, no novo governo que se espera legitimamente eleito, a situação a que chegamos. Não estaremos - e os EUA nos mostram que essa é uma realidade universal - livres dos imbecis e suas ideias tóxicas. O que precisamos apenas é de maturidade suficiente para que não sejam levados a sério ou se revelem como ameaça aos valores mais básicos da civilização.

sábado, 4 de agosto de 2018

Esquerdas ignoram que fascistas não se consideram fascistas

Para entendermos os fatos é preciso entender a mentalidade dos outros, principalmente de opositores. Entender opositores é importante para que possamos conhecer suas atitudes e saber como eles agirão em favor deles, não raramente causando danos para os que não estão de seu lado.

As esquerdas brasileiras são bastante ingênuas. A facilidade com que se deu o golpe de 2016 é uma prova disto. O socialismo brasileiro ainda é muito verde e ainda está em processo de amadurecimento. Há muitas coisas para os esquerdistas aprenderem se quiserem ser uma esquerda de verdade. Uma delas é saber que fascistas não se consideram fascistas. 

Vamos entender o que se passa nas cabeças dos fascistas. São pessoas de nível intelectual limitado, embora se achem mais sábios que as outras pessoas, já que aceitam a sua visão de mundo como se fosse mais ampla do que já é. Como se o mundo limitado que conhecem fosse o mundo em sua totalidade. É receber 30% achando que recebeu 100%.

Imagine estas pessoas sendo ameaçadas de perder seu patrimônio para pessoas que não fazem parte do mundo delas. Bom lembrar que os fascistas se auto-rotulam "homens de bem" e que a sua agressividade é considerada por eles como um ato de defesa. Por isso que muitos jovens ricos e pobres ameaçados pela violência nas favelas correm para os braços de Bolsonaro para pedir socorro.

Não estou dizendo que os admiradores de Bolsonaro estão corretos. A falta de visão de mundo deles os faz querer resolver de forma violenta problemas que em sua maioria tem origem econômica. Mas educados por uma moralidade tosca e subjetiva, enfiaram na cabeça que tudo se resolve batendo, prendendo ou matando. Bolsonaro parece ser a melhor pessoa para resolvê-los desta forma.

Nem tente chamar os admiradores do "Mito" de fascistas. Eles não se acham fascistas. Apesar da afinidade ideológica e das atitudes tomadas, os fascistas brasileiros não gostam do Fascismo. Vários acusam o Nazismo de ser de esquerda ou dão características fascistas ao Comunismo, embora os próprios bolsonaristas realmente ajam como neonazistas. 

Mas na cabeça deles, toda a raiva e agressividade não passa de pura defesa de "cidadãos de bem" contra a ameaça "sádica" dos esquerdistas, que na ótica deles, defendem "bandidos", "vagabundos" e classes consideradas "inferiores". 

O Bolsonarismo adquiriu claras características neofascistas, adaptadas à realidade brasileira. Saem os "arianos" e entram os "homens de bem". Saem os "judeus" e entram os "esquerdopatas". Mas o desejo de vingança sádica dos bolsonaristas é exatamente o mesmo dos neofascistas, onde a "defesa" não passa de mera desculpa a eliminar desafetos.

Os bolsonaristas não são ideologicamente firmes, a não ser naquele moralismo aprendido nas igrejas e nos filmes de ação. Não assumem rótulos e não usam roupas estranhas. Boa parte dos neo-fascistas brasileiros se veste como cidadãos comuns. Neofascistas trabalham, se divertem, sorriem, namoram, se casam, comem e dormem. Agem como pessoas normais. Você só percebe quando determinados assuntos são tocados nas conversas.

As esquerdas deveriam parar de ingenuidade e lembrar que os neo-fascistas estão bem longe do estereótipo do careca com roupa de militar e que vive 24 horas por dia de mau humor. Esqueçam disto. O neofascista é aquele vizinho fanfarrão todo alegre que comenta sobre o jogo de futebol do domingo passado, tomando uma cervejinha bem gelada do seu lado. 

Ele vai sorrir até que você se lembre das injustiças do mundo real. Aí você vai perceber o neofascista que se apresentará diante de você. Se proteja, para não ser agredido por ele.